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Eu não sou cachorro, não
Sinto muito se você abriu este texto porque é um fã de Waldick Soriano. Não vou falar sobre ele porque, apesar de gostar de MPB, não entendo de música o suficiente para ocupar o papel de crítico ou comentarista. Quero falar de algo tão importante quanto, mas bem menos poético do que essa forma de arte. O objeto deste texto é soberania, principalmente a soberania do Brasil.
Para simplificar, vou dizer que a soberania de um país é a vergonha na cara que ele precisa ter para fazer cumprir internamente suas próprias leis e para se fazer respeitar pelos demais países no plano externo. É preciso ter autonomia e força de vontade para manter ereta a espinha dorsal – a própria e a nacional.
Certo, mas o que isso tem a ver com o clássico da “dor de cotovelo” que citei como título? O compositor diz no verso que, apesar de amar, não poderia viver desprezado e humilhado. Manteve a coluna ereta apesar de sacrificar um amor. Esta lição pode ser apresentada a um dos candidatos à Presidência neste segundo turno de eleições.
Embora se diga patriota, a bandeira de um dos principais concorrentes ao Governo Federal não é a verde-amarela; é a norte-americana. Flávio Bolsonaro, repetindo seu pai, bate continência para Trump e seu discurso de America First – ou seja, EUA primeiro. Que ninguém se deixe enganar: o irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, está há meses articulando a interferência estadunidense no nosso país e, mais recentemente, na nossa eleição. Certamente não terá deixado passar a oportunidade de exercer influência em favor do candidato da família, pois o objetivo de ambos, ao menos o declarado, é alcançar a Presidência para, a partir desta posição, de tudo fazer para anistiar o pai, condenado pela tentativa de golpe.
O problema maior desta equação nem é o intuito oficial dos irmãos, mas o que os EUA conseguirão em troca do apoio à família Bolsonaro. Embora alguns de cá se deem essa importância, tenho certeza de que Trump e os norte-americanos não estão neste jogo para beneficiar Jair ou Flávio. Seu interesse não é democrático ou republicano.É ingênuo pensar assim.
Quem duvida do que afirmo precisa explicar a completa ausência de auxílio aos venezuelanos depois do terremoto que destruiu nosso vizinho. Trump sequestrou o ditador, mas não amparou a democracia nem a república. Seu único interesse foi – desde sempre – econômico: a aquisição violenta do petróleo daquele país.
Nossa nação também tem petróleo e em quantidade suficiente, inclusive, para justificar o golpe de 2016. Este recurso natural ainda é relevante, o que é provado pela permanente tensão no Oriente Médio. No entanto, a perspectiva é que se torne o símbolo de uma riqueza do passado. Neste momento, há uma corrida em direção às terras raras, que prometem ser a base da tecnologia do futuro – especialmente no campo militar.
Para alcançar seus objetivos, Trump eleva a voz em um discurso ideológico. Promete liderar um movimento de direita para liberar a América Latina de um suposto domínio da esquerda. É curioso que esse tipo de discurso nunca reconheça sua própria ideologia e seu próprio domínio. Sempre é o outro lado que é acusado de impedir a liberdade. Descontada a falta de autocrítica, Trump está, na verdade, tentando tomar posse de uma das maiores reservas de terras raras do planeta – e para isso conta com o apoio da família Bolsonaro.
Não há aí qualquer ato beneficente: Trump se vangloria de ser o melhor negociador da história, não de ser o maior filantropo que já se viu.
Do lado de cá desta “negociação”, Flávio Bolsonaro penhora o Brasil para tentar salvar Jair. Sem vergonha na cara, com a espinha curvada, vai sacrificar nossa soberania, iludido com a posição de negociador. Longe de mim servir de régua para medir os sacrifícios que cada um faz para proteger seus pais, mas entregar o futuro de um país para salvar um medíocre como Jair Bolsonaro é demasiado, injustificável e indefensável.
É preciso, então, cantar o refrão que dá título ao texto para dizer que o Brasil e a América Latina são grandes demais para caber no quintal do estrangeiro que for – pelo motivo que for. É isso que significa ter soberania.
Artigo de Magnus Kappenberg publicado no site Sul21: https://sul21.com.br/opiniao/2026/10/eu-nao-sou-cachorro-nao-por-magnus-kappenberg/
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